Hoje a
expansão do Universo é um dado adquirido. E mais ainda: é uma expansão
acelerada. Mas há exatamente 100 atrás existia uma evidência contrária: a
galáxia Andrómeda que foi a primeira que esteve envolvida nas medições da
velocidade de Doppler apresentava desvio para o azul, com uma velocidade de
aproximação da nossa galáxia de 300 km/s.
Foi Slipher
que em 1912 obteve quatro espectrogramas de um objecto que ele classificava
como uma nebulosa (nessa altura ainda se acreditava que a nossa galáxia era
única!), a nebulosa de Andrómeda. E quão custoso deveria ter sido a obtenção desses
primeiros quatros espectrogramas! Relembremos: a luz de uma estrela está
concentrada num ponto na imagem formada por um telescópio; para fazer
espectroscopia é necessário dispersar essa imagem para identificar as linhas e
os seus afastamentos, que se conseguem distinguir com a imagem dispersa porque
esta é suficientemente brilhante. Mas a imagem de uma galáxia está dispersa
logo no princípio e a dispersão espectroscópica da já ténue imagem torna-a
ainda mais ténue, com as linhas do espectro difíceis de diferenciar e identificar.
Se a imagem dispersa for demasiado grande as linhas serão demasiado ténues para
poderem ser vistas; se a imagem for suficientemente nítidas para se verem as
linhas será provavelmente demasiado pequena para que se possa medir os desvios
das riscas…E tudo isso é feito na cúpula de um telescópio sem aquecimento
porque o ar quente provoca correntes de convexão que podem esfumar a imagem no
telescópio. E Slipher trabalhava num
observatório 2000 m acima do nível do mar… Esses primeiros quatro espectrogamas
são o fruto não só de um extraordinário engenho técnico mas de um árduo,
paciente e sacrificado trabalho. A tudo isso devemos o nosso actual
conhecimento da expansão do Universo.
Mas a
história não se fica por aqui, não!
Com muito
trabalho, levando os instrumentos até ao seu limite, Slipher aumentou a lista
de desvios de Doppler até 13 em 1914. Mas agora surgia um padrão: apenas duas
destas 13 imagens apresentavam desvios para o azul, as restantes 11 tinham
todas desvios para o vermelho. Seria coincidência? Em 1925 Slipher tinha medido
41 desvios de Doppler e outros astrónomos tinham juntado 4 à lista (Slipher
sozinho tinha mais medições de que todos os outros juntos!). Agora eram 43 em
45 que apresentavam desvios para o vermelho, e a máxima velocidade de recessão
medida ultrapassava os 1000 km/s. Parecia nessa altura que era mais do que simples coincidência…Note-se que nessa altura ainda não sabiam que esses
objectos “nebulosos” eram na realidade galáxias por direito próprio.
Hubble
herdou todos esses desvios mas só conhecia a distância a 18 galáxias isoladas.
Já havia a suspeita que as maiores velocidades de recessão medidas por Slipher
eram das galáxias mais distantes, mas foi Hubble quem teve a ideia de comparar
os desvios para o vermelho com as distâncias, construindo um gráfico, apenas com
os dados referentes 33 galáxias, das quais ele conhecia apenas as distâncias a 19 objectos.
Eis o
gráfico por ele obtido e publicado no ano de 1929:
Que
professor que aceitaria essa linha recta se um seu aluno a apresentasse? No
mínimo seria preciso ter muita fé e não menor imaginação para desenhar uma recta através daqueles pontos! Confesso
que quando o prof. Paulo Crawford me exibiu esse gráfico no seu Curso realizado
no Observatório da Ajuda fiquei chocado! Insatisfeito fiz uma pequena pesquisa
bibliográfica para me sentir mais esclarecido…e surgiu este post!
Mas parece
que o sucesso aos audazes pertence e em 1931 um outro gráfico resultante do
trabalho minucioso de Hubble e um seu colaborador,Milton Humason, confirmava a
exactidão da audaciosa mistura entre trabalho científico e imaginação feita
inicialmente por Hubble. Eis o gráfico que definitivamente confirma a expansão
do Universo:
Agora sim! Cá temos um respeitável gráfico que estabelece uma das maiores descobertas intelectuais feitas pelo Homem em toda a sua história!
NOTA- O pequeno rectângulo representa as primeiras medidas feitas por Hubble.
Sem comentários:
Enviar um comentário