A Física nos anos 50 do século passado fez uma descoberta
que provocou sensação e que ainda hoje nos intriga: a violação da paridade.
Todos nós damos como adquirido que a diferença entre a
esquerda e a direita é mera convenção. Se para nós humanos o é de facto (se o
coração estivesse colocado no nosso lado direito não seria impeditivo da
funcionamento da máquina humana), a Natureza ao nível microscópico faz uma
distinção fundamental entre a esquerda e a direita. A equipa da madame Wu
descobriu (1957) que na desintegração do Cobalto(que é uma manifestação da
interacção fraca) essa desintegração se dá preferencialmente numa direcção (esquerda) em detrimento da
direcção contrária- a Natureza escolhe a esquerda. É a violação da paridade.
Essa violação é tão desagradável à nossa mente que logo os
físicos imaginaram um processo no qual uma versão sofisticada da conservação da
paridade fosse restabelecida. Para isso imaginaram que se as partículas fossem
substituídas pelas suas antipartículas correspondentes (operação C,que significa “charge conjugation”)talvez
voltássemos a ter a conservação não da simples paridade, mas da paridade
composta com a operação de troca da partícula pela antipartícula. Seria a
conservação CP.
Lamentavelmente também essa esperança se desvaneceu. E os
físicos que contribuíram para a morte de um princípio tão querido- a
conservação CP- alcançaram o Nobel de 2008.
Mas o pior estava para chegar.
Existe um importante teorema na Teoria Quântica do Campos (
é apenas a Mecânica Quântica aplicada aos campos, quando aplicado ao nosso
familiar campo electromagnético temos a Electrodinâmica Quântica) que afirma
que se trocarmos a esquerda pela direita (simetria P, de paridade), a partícula
pela antipartícula(simetria C) e o presente pelo passado (simetria T, de tempo)
os fenómenos permanecem invariantes. É a conservação da simetria CPT, uma simetria mais alargada que a simetria P e mais alargada
ainda que a simetria CP. Está demonstrado!
A conservação CPT significa, por exemplo, que se há violação
CP (e há!, Nobel 2008) então terá que, concomitantemente, existir violação T,
para contrabalançar essa violação. Quer dizer, há assimetria temporal, há uma
seta do tempo para o futuro, os fenómenos não voltam atrás. Neste momento
consigo escutar a irónica exclamação: “Grande novidade! Não voltar atrás no
tempo!”. Isso é verdade para os fenómenos macroscópicos mas não se aplica aos
fenómenos microscópicos, porque se substituirmos (t) por (-t) nas equações de
Newton essas serão invariantes, quer
dizer, os planetas descreverão os seus movimentos no sentido contrário, no sentido do passado , imperturbáveis à
substituição de (t) por (-t)- as equações da Mecânica exibem simetria temporal.
Por isso as equações de Newton permitem
que o filme passe ao contrário.
Os cépticos poderão sempre argumentar desdenhosamente:” uma
coisa é a teoria outra é a prática!”. Para aqueles que tendem a subestimar a
matemática este mês deu-lhes outra lição sobre o poder da teoria. O físico
J.P.Lees et al. acaba de publicar na Phys.Rev. Lett. http://prl.aps.org/abstract/PRL/v109/i21/e211801
um artigo que mostra a violação da simetria T em certos sistemas de mesões (com
grau de certeza 14-sigma, para comparação a descoberta do Higgs tem grau de
certeza 5-sigma). Nas palavras de um dos
físicos responsáveis por essa investiagação:
"It was exciting to design an experimental analysis that enabled us to
observe, directly and unambiguously, the asymmetrical nature of time,"
Com essa descoberta percebemos que as equações de
Newton são incompletas. Que os fenómenos, mesmo ao nível microscópico, não são
irreversíveis, uma prerrogativa até agora atribuída aos fenómenos macroscópicos
tal como tínhamos aprendido na Mecânica Estatistica"It was exciting to design an experimental analysis that enabled us to
observe, directly and unambiguously, the asymmetrical nature of time,"
Com essa descoberta percebemos que as equações de Newton são
incompletas. Que os fenómenos, mesmo ao nível microscópico, não são
irreversíveis, uma prerrogativa até agora atribuída aos fenómenos macroscópicos
tal como tínhamos aprendido na Mecânica Estatistica.
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