Uma leitora curiosa do blog perguntou-me: “ o que é o bosão de Higgs?”. Vou tentar explicar, mas como a interrogação não tem uma resposta imediata (teria, se a resposta fosse: “é a partícula que confere massa às outras partículas”, mas eu não ficaria satisfeito com uma resposta tão vaga…), vou contextualizar a existência desta famosa e hipotética partícula.
Tudo começa com o desejo profundo dos físicos em unificar o que é diferente.
A maçã cai , a lua não cai- fenómenos diferentes explicados pela teoria de gravitação de Newton.
O íman atrai/repele, há comunicação há distância, há luz (há não há?) – fenómenos diferentes explicados pelo electromagnetismo de Maxwell e pela teoria quântica(esta última só explica a emissão da luz, mas a luz é emitida por átomos, e só existem átomos em virtude da interação electromagnética).
O sol existe ( não existe?), há materiais radioactivos- fenómenos diferentes explicados pela moderna teoria da interação fraca.
Finalmente, nós existimos ( segundo Descartes existimos mesmo porque pensamos), tal como existem flores e planetas - tudo explicado pela moderna teoria da interação forte. Não existindo esta força para obrigar os protões a juntar-se não existiria matéria.
Em resumo: 4 forças para explicar todo o Universo visível.
Mas os físicos acreditam no Uno. Não serão estas 4 forças a manifestação de uma única força?
A teoria consegue unificar três delas ( com excepção da gravidade) numa bela teoria matemática mas no fim surge um contratempo: todas as partículas não têm massa, o que contraria a experiência…A teoria é bela mas imprestável. Como os físicos amam a beleza das equações (houve um físico, Paul Dirac, que disse : a “verdade está na beleza”) e a teoria contém inegável beleza ( teoria de gauge, chama-se essa teoria para os interessados), procurou-se uma maneira elegante de colmatar essa falha.
Aqui entra o bosão de Higgs.
O bosão de Higgs resulta de um mecanismo que permite que uma partícula originalmente sem massa a adquira quando interage com o Higgs ( para os interessados: o mecanismo chama-se quebra espontânea de simetria).
Em resumo, sem bosão de Higgs uma teoria excepcionalmente bela vai para o caixote do lixo. Com Higgs, três interações ficam unidas numa só força. E o desejo de unificação da natureza fica satisfeito.
Claro que subsiste uma pergunta: a Natureza é mesmo una?
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